Serigrafia - Um Processo sem Inventor

 

Se a tipografia tem o seu Gutenberg, a litografia tem o seu Luis Senefelder, se cada processo ou método tem o seu inventor, a serigrafia demarca-se logo das restantes técnicas de reprodução por não ter nenhuma personalidade histórica como símbolo. Mas afirma-se como a técnica de reprodução mais antiga do mundo, já que se desenvolveu com base no ancestral processo de repetição de imagens utilizado por homens das diversas épocas culturais, desde tempos imemoriais.

 

Na Idade da Pedra os "artistas" pré-históricos usaram as próprias mãos, para cobrir parte da parede duma caverna (face dum rochedo) e espalharam pigmento à volta delas, criando assim perfis de animais, ou simplesmente uma imagem em negativo da mão. No século XIV, antigas culturas como os Egípcios, os Gregos e os Romanos utilizavam matrizes recortadas para cuidadosamente reproduzirem desenhos complicados, em paredes e artefactos. Também os imperadores romanos e posteriormente Carlos Magno usaram o mesmo método para autenticar documen­tos e escritos oficiais com a sua assinatura. Métodos semelhantes eram usados na América Latina, pelas civilizações Maia, Azteca e Inca. Uma técnica similar foi empregue por Chineses e Japoneses que utilizaram moldes de madeira recortados para ornamentar tecidos como a seda e algodão. No século XV os jogos de cartas, roupa, sapatos e mobiliário eram decorados com a ajuda de matrizes recortadas; exemplos disto podem ser encontrados em diversos museus. Na Bíblia de Juan Gutenberg as letras iniciais decorativas são pintadas desta forma. Os primeiros papéis de parede impressos por processo estêncil foram produzidos no século XVI na Holanda. Foi nesse século que se deu a transformação mais bela da impressão por estêncil, com a utilização das “matrizes de cabelos” um sistema inédito inventado no Japão, em que, após os desenhos serem minuciosamente recortados em papel de fibra de amoreira, a matriz era construída fixando todos os detalhes de forma criteriosa sobre cabelos humanos (pêlos de animais e mais tarde fios de seda) entrelaçados em forma de rede, que estavam previamente esticados e fixos a uma espécie de caixilho de bambu (ou cartão). As cores eram posteriormente aplicadas com a ajuda dum pincel plano através dos espaços livres do desenho.

 

Apesar das criações elegantes e refinadas dos japoneses, na Europa só no ano de 1870 em França (região Lyonesa) e posteriormente na Alemanha, pudemos observar o aparecimento da "matriz de seda" como método de decoração de têxteis. Nos Estados Unidos, oficialmente só apareceu em 1879, ano em que foi atribuída a primeira patente de serigrafia. O processo continua e em 1907 é registado em Inglaterra um novo método por Samuel Simon, de Manchester, embora a utilização da “raclete” não fosse ainda referenciada. Esta ferramenta com perfil de borracha, que provou ser uma excelente forma de pressionar a tinta através das zonas abertas da matriz, foi introduzida pelos mesmos artesãos californianos que patentearam o processo conhecido por método “selectasine”, outorgado em 1918. Este novo método de fazer serigrafia rapidamente irradiou através dos Estados Unidos, difundindo-se em seguida pela Europa, Londres em 1925, depois Amsterdão, Estocolmo em 1927 e por volta do ano 1930 em França, Bélgica e Suíça, colocando desse modo em evidência a utilização comercial do processo no princípio do século.

 

Nos anos vinte, os serígrafos tiveram de providenciar as suas próprias tintas, tendo em consideração que até aí nenhuma tinta tinha sido especialmente formulada pensando na aplicação específica da serigrafia. Até meados dos anos 50 não foram feitas alterações significativas ao processo, mas a partir de então as mudanças são expressivas, quando determinado número de produtos foram introduzidos com um efeito radical de reforma na indústria. Entre os mais extraordinários incluíam-se novos produtos para a confecção melhorada de matrizes e auxiliares, assim como a introdução de telas sintéticas, perfis de poliuretano e novos progressos tanto em maquinaria como em tintas planas e tricromáticas.


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